Ontem, aconteceu, na Editora Globo, um debate da revista Época, sobre a nova diplomacia brasileira e a transição do Brasil de líder regional a líder global, com a participação do embaixador Rubens Barbosa e do cientista político Amaury de Souza. O debate buscou analisar, sobretudo, os desafios que serão enfrentados pelos nossos novos governantes, a serem eleitos no próximo mês, quanto à política externa brasileira e às questões internacionais que devem ser priorizadas, para que se mantenha o aspecto de favorecimento da participação brasileira junto à comunidade internacional. Eu trouxe alguns pontos principais das apresentações daqueles dois conhecedores da política externa brasileira e porquê não dizer, doutrinadores das relações internacionais do Brasil.
De acordo com Amaury de Souza, a política externa do Brasil deve ser focada no comércio exterior e na política de segurança. Não entende-se a última questão como um aspecto meramente realista, no que trata das teorias de relações internacionais, mas sim algo voltado principalmente para a integração regional ou continental. De acordo com o cientista político, a violência transnacional tem se sobressaído nos países não só da América do Sul, mas para além, na América Latina, como no México, que temos visto nos últimos dias. Essa violência que ultrapassa fronteiras deve ser também tópico da política externa do Brasil, bem como de todos os países do continente americano, que buscam destaque e atuação efetiva, além de reconhecimento, junto à comunidade internacional. Não só em trocas comerciais, que ainda precisamos tornar política de governo e de Estado, ou estímulo ao segundo setor, é que devemos focar nossa política externa. É preciso ir além das fronteiras e basear-se em segurança nacional, no que se refere ao Brasil e aos países vizinhos.
Para o embaixador Rubens Barbosa, a característica de continuação, presente na política externa brasileira desde sempre, foi quebrada nos últimos anos, a partir do Governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Apesar das afinidades regionais, a política externa atual não corresponde ao momento de mudanças globais que estamos vivendo. Para o embaixador, várias situações internacionais vividas e priorizadas pelo governo brasileiro são consideradas um grande fracasso da nossa atuação internacional. A rodada Doha, o G20 comercial, a reforma do Conselho de Segurança da ONU, América Latina, América do Sul, Mercosul, integração regional: tudo isso significou nada, de acordo com o ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington. Para Rubens, o Brasil vai entrar sim para o Conselho de Segurança das Nações Unidas e isso é apenas questão de tempo. Já a região sul está cada vez mais desintegrada, devido às visões de mundo diferenciadas. Nesse sentido, o único ponto positivo da nossa política externa é apenas a sua histórica continuidade. Soma-se a isso a formação dos BRICs, uma das principais realizações da política externa do Brasil, e a projeção externa que temos conquistado nos últimos anos, ao buscar atuar sobre os global issues ou sobre a reforma do sistema financeiro internacional. No que se refere ao aspecto comercial, o Brasil firmou dois acordos nos últimos dias, um com Israel e outro com o Egito, ambos sem a menor relevância comercial. A abertura comercial, a ideia do duty free - cota free e os acordos com pequenos mercados mundiais seguem descaracterizando nossa política externa como força importante para a comunidade internacional. De acordo ainda com o embaixador, a nossa política externa não foi alavancada pelo aumento das exportações brasileiras. Houve um crescimento no mundo todo e inclusive no Brasil. Apesar disso, estamos enviando mais manufaturas para o Mercosul do que para os EUA, exportando apenas bens primários, ficando para trás da China com sua economia de mercado, seu dumping e seu framework.
Essas são questões fundamentais que deverão ser abordadas e priorizadas pelo próximo presidente (ou presidenta) do Brasil. É preciso manter a continuidade, no sentido de caminhar para frente e para a evolução, para o desenvolvimento, e buscar concretizar uma liderança global, que ultrapasse as fronteiras locais, regionais e continentais, a fim de se manter o país em um estágio de crescimento e fortalecimento junto às grandes potências mundiais.
Daniela
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